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Em Surdina
Jorge Coli
Especial para a Folha
PENÉLOPE - Ainda na Pinacoteca do Estado (SP),
uma exposição consagrada a Vera Martins reúne seus objetos feitos de
tecidos, antes desfiados que fiados. Eles se enrolam, se fazem e se
desfazem. Estiram-se , animados, em tramas largas, deixando visíveis
os fios ; escorrem em abandono; aconchegam-se em corolas; determinam
transparências, orifícios ou obstruções. Paira uma calma feminina em
tudo isso, um acabamento cuidadoso, em que o trabalho apaga seus
próprios traços. E onde, também, se incorpora algo de ritual, de
solene, de sagrado, escondendo segredos e presságios.
Publicado: 15 - 09 - 2002 , Folha de São Paulo -
MAIS! , Coluna - Ponto de Fuga , Página 19.

December 14, 2001, Friday
LEISURE/WEEKEND DESK
ART REVIEW; Contemporary Brazil In Fabric and Thread
By KEN JOHNSON

(...) Vera Martins, for example, makes a
practice of unraveling canvas -- the kind painters paint on. She
creates free-standing skeins of off-white thread that hang like
wigs on invisible armatures, and she wraps thread around
painting stretchers to produce a kind of reconstructed
deconstructed Minimalism. Ana Linnemann drills holes in
bite-size rocks and threads them together using copper wire and
heavy-duty needles. And Marepe makes objects that look like
laundry bundles, calling to mind the wrapped sculptures of
Christo. You could read various meanings into such works, but
what prevails is more factuality than transcendence.
''The Thread Unraveled'' (''O Fio da
Trama'') will remain on view at El Museo del Barrio, 1230 Fifth
Avenue, at 104th Street, East Harlem, (212) 831-7272, through
Feb. 3.
Published: 12 - 14 - 2001 , Late Edition -
Final , Section E , Column 1 , Page 41
Pinel abre as portas e expõe a arte dos internos
Arte e Lazer Visuais
O Estado de São Paulo
São Paulo - Neste sábado uma
exposição diferente vai acontecer em São Paulo. O Hospital
Psiquiátrico Pinel em Pirituba vai abrir as portas para mostrar
um pouco da arte produzida pelos seus internos. São pinturas,
peças de papel marché, cerâmicas e coreografias criadas nas
Oficinas Culturais da Secretaria da Cultura do Estado de São
Paulo, que acontecem no hospital desde outubro deste ano. É um
tempo muito curto para um retorno consistente,mas uma oportunidade
rara de conhecer o trabalho artístico de um dos mais antigos e
conhecidos manicômios do país. A mostra Fina L Mente celebra 71
anos de existência da instituição e pretende ser mais uma festa
para aumentar a auto-estima dos internos do que uma grande
exposição. As Oficinas Culturais são uma parceria da Secretaria
Cultura, que paga os profissionais, e da Secretaria de Saúde, que
entra com todo o material e cuida dos artistas internos.
A arte inconsciente foi muito debatida durante
o ano. Na mostra Brasil 500 anos, uma boa área foi destinada as obras
de internos de manicômios cariocas como a Colônia Juliano Moreira,
onde Arthur Bispo do Rosário produziu a maior parte de suas obras. O
acervo cedido pelo Museu Imagens do Inconsciente e Casa das Palmeiras
foi um dos sucessos da mostra.No Pinel,a maior atração é a proximidade
com o cotidiano dos "loucos", suas reações, gestos e o próprio espaço
do Pinel, importante para entender a sua arte, e que pouca gente conhece.
Alguns internos não falam. Outros pronunciam
apenas palavras aparentemente desconexas.Misturam fantasia e realidade
e não deixam saber quem são ou o que os levou ao Pinel. Encontram nas
atividades culturais a oportunidade de se expressar e , talvez, se
entender.

A artista plástica Vera Martins é a responsável
pela oficina que vai apresentar cerca de 30 telas. "É pouco tempo para
falar que houve alguma evolução dos pacientes", explica. "O que aumentou
foi a afinidade deles com o material e uma vontade maior de pintar e de
participar dos exercícios".
Vera pouco sabe sobre o prontuário dos alunos mas
já percebe algumas características. O interno Luis Cardoso é um dos que
lhe chama mais atenção. Aparenta ter entre 30 e 40 anos e não fala. "O
Luis mantém a mesma personalidade de traço em todos os seus trabalhos,
está falando de alguma coisa muito verdadeira que é só do universo dele,
sem figuras definidas mas sempre com uma mesma estética", conta Vera.
Seus desenhos repetem formas que parecem grandes, sempre linhas firmes,
e não se preocupa com encher toda a tela com tinta. "São poucas linhas,
mas ele viu na pintura uma maneira de se comunicar e tentar ser feliz",
acrescenta.
Um dos trabalhos mais impressionantes é do Adilson.
Ele passa horas em um mesmo quadro, escolhe cores e formas como se
tivesse experiências em pintura .Suas telas lembram as formas de Volpi
e mostram muita concentração."O Adilson é sério, fechado,faz apenas um
trabalho por aula e não gosta de falar muito, ele repete as cruzes, por
que diz que é muito católico, descreve Vera.
Os trabalhos de Monalisa também ficaram famosos no
Pinel. Contam que ela teria sido bailarina e que teria visto um
assassinato em sua própria casa quando criança . Nada pode ser confirmado
, ela foi abandonada no hospital pelos os seus parentes que mudaram de
cidade . Tem entre 28 e 30 anos e diz ter 15. Pintava apenas casas, em um
ritmo frenético, depois jogava tinta por cima do desenho e às vezes
amassava a tela. Depois começou a pintar apenas rostos, uma série deles ,
com os traços infantis e bem circulares."Quando um interno começa a deixar
os traços geométricos para fazer círculos, é um bom sinal de evolução",diz
Vera.
Da sua carreira de bailarina há apenas indícios.
Rosana Batistela, que gerência a oficina de teatro e dança, percebe nela
uma grande maturidade de gestos. "Ela fica no canto, quieta e de repente
levanta, faz alguns passos clássicos de balé e volta para estado de
letargia", conta Rosana. Com ela os internos vão apresentar coreografias
e algumas cenas criadas por eles. "Os loucos têm uma facilidade grande
de "entrar" nos personagens mas não dá para montar uma peça pois eles
não têm paciência de repetir a mesma cena", conta. Vão apresentar alguns
exercícios de improvisação criados pelos internos, como uma cena que
mistura a tradição nordestina do Bumba-meu-Boi com as touradas espanholas.
A grande atração é uma coreografia de um Dragão
Chinês, inventada pela coordenadora das oficinas Nanci Mollo. "Quando
eu trabalho com as oficinas, a minha primeira intenção é produzir um
espetáculo interessante para o público", diz ela que é artista plástica
e coordena mais 18 oficinas além da que comanda no Pinel. O Dragão foi
feito em conjunto com todas as áreas culturais. A cabeça foi preparada
nas aulas de papel marché, o corpo foi pintado com a Vera Martins e a
dança ensaiada pela Rosana Batistela. "Eles não recebem visitas, foram
abandonados pela família,trabalhar a auto-estima deles é mais importante
do que a oportunidade de dar vazão a criatividade", acredita Nanci.
Publicado: 15 - 12 - 2000 , O Estado de São Paulo -
Arte e Lazer Visuais , Reportagem - Gustavo Vieira.
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